UMA FESTA EM ARUANDA

30/06/2014 21:07

Uma Festa em Aruanda

 

Em uma linda noite de, após o desdobramento natural do sono, em uma das minhas muitas visitas em ARUANDA, em uma aula que tive com meu amado Pai Joaquim, foi onde tive uma das minhas melhores e mais profundas aulas nesta minha caminhada terrena. Estavam ocorrendo algumas preparações para uma grande festa de Pretos Velhos para um trabalho espiritual em uma Tenda de Umbanda. Pai Joaquim estava coordenando os preparativos e quando cheguei, saudei-o e começamos a conversar. Nossa conversa versou sobre diversos assuntos, até que o Pai Joaquim me disse:

- É fio, nego veio tá cansado!

E eu na minha ignorância e natural curiosidade de humano perguntei:

- Cansado Vô, até mesmo aqui o Senhor fica cansado?

- Pois é Fio, aqui na ARUANDA, nessas aulas que oceis tem, também tem muita gente que vem lá da terra fria e não se alembra disso, dessas aula que oceis tem aqui, inclusive não coloca em pratica nada do que aprende aqui quando acorda.

- Mas Vô, se eles não praticam, porque voltam?

- Fio, quantas veis ce se alembra dessa conversa com o nego véio?

- Muitas delas Vô.

- Dessas muitas, sabe me dizer quantas fio?

- Não sei não Vô.

- Se um ano tem 365 dias, o ce vem pra cá todas as noites, de quantos ce se lembra fio?

- Vendo assim Vô, poucos, bem poucos.

- Então fio, se oce se alembra de poucos, imagina esses fio que tem a missão mas não aceita. Imagina esses fio que durante o dia, mesmo estando trabaiando na seara bendita de nosso Senhor,  Inveja, desarmoniza, odeia, tem ciúme, vaidade e na hora do sono vem pra cá pra aprender.

- Então Meu Pai, estes irmãos que mesmo carregando o peso destes sentimentos, todas as vezes que estão aqui, estão sempre limpos e se harmonizam com todos?

Foi quando anunciaram que o preto velho precisava ir trabalhar. Ele apagou o “PITO”, levantou-se e começou a caminhar. Em seu caminho ele passava pelo meio de todas as pessoas que estavam presentes ali. Naquele momento, pude contar mais de trezentas pessoas. Olhou para mim e disse-me:

- Vamo fio, sua aula ainda não acabou.

- Sim Senhor, meu Pai.

Em seu caminhar curvado, porem firme e de passos largos e fortes, começou a sentir, em cada irmão nosso que se encontrava ali, o peso aumentar e, eu ao seu lado, ficava apenas olhando à frente, como o nego veio havia me orientado em outras ocasiões. Neste momento, uma vos, vinda não sei de que irmão o saudou:

- A sua Benção Vô.

- Que Zambi abençoe sunse fio.

- Posso ajudar o senhor a carregar seu grilhão, meu Pai?

- pode sim Fio!

- E onde pego para ajuda-lo vô?

- Num carece de pega não fio, apenas alivie o seu coração de todo sentimento negativo que oce já ajuda o nego a carregar o grilhão.

Neste momento, ouviu-se em um coro uma linda canção em forma de lamento:

        

         Pai veio o que lhe pesa tanto

         É o grilhão do Ódio Humano

         Pai veio o que lhe pesa tanto

         É o grilhão do Ódio Humano

 

         O que fazemos meu Pai lhe ajudar

         Cultive amor meu fio, pra aliviar

         O que fazemos meu Pai lhe ajudar

         Cultive amor meu fio, pra aliviar

        

         Desse jeito se vai ajudar

         Fortalecendo esse veio, meu fio, pra trabalhar.

         Desse jeito se vai ajudar

         Fortalecendo esse veio, meu fio, pra trabalhar.

 

         E em meus tormentos meu Pai o que fazer

         Pense em OXALÁ meu Fio, que o se vai ver

         Alivie o coração meu fio, pra não sofrer.

         E em meus tormentos meu Pai o que fazer

         Pense em OXALÁ meu Fio, que o se vai ver

         Alivie o coração meu fio, pra não sofrer.

 

            Quanto mais ele andava, mais vozes engrossavam este coro, mais gente pedia a benção e, desta forma, aliviavam a carga do Vô, ajudando a carregar o Grilhão.

 Quando chegamos ao Congá, O Nego Véio ajoelhou-se, elevou as mãos para o céu e disse:

- Obrigado meu CRIADOR por ter conseguido plantar a semente do amor em poucos, mas férteis corações.

Eu, ali a seu lado, em lagrimas, ajoelhei e, instintivamente e com o coração cheio de alegria encostei a cabeça no chão e lhe disse:

- Obrigado meu Pai por mais estas lições e, por favor, meu senhor, não me deixe esquecer de nada do que vi e ouvi aqui hoje. Esta foi uma das muitas lições que o senhor me passou, mas, acredito eu, que tenha sido uma das mais importantes para mim até hoje. Lembrei-me de outra canção neste momento e comecei a entoa-la: “..... muito obrigado meu Pai Oxalá, pelas bênçãos que o senhor me deu. Eu sou instrumento da Umbanda, por onde for levarei o nome seu.......”. Convulsivamente comecei a chorar. Despertei ainda chorando e, por orientação do Meu Amado Nego Véio, escrever estas linhas para registar mais uma AULA e mais um encontro, mais uma FESTA EM ARUANDA.

 

 

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Fabio Pereira Marques

Inspirado, em desdobramento por, Pai Joaquim de Arruda em 30/01/2010, às 05h e 30m